Durante a gestação, você ouve dezenas de crendices, das inofensivas às assustadoras. Há quem garanta que, se sua barriga estiver arredondada, terá uma menina, e também os que acreditam no poder da cerveja preta para assegurar uma boa amamentação. Descubra o (pouco) que é verdade e o que não passa de lenda

Pense rápido e mostre a mão. Se você apresentar o dorso, terá uma menina. Caso tenha virado a palma, seu bebê será um garotão. “Mecanismos” para desvendar o sexo da criança estão entre as crendices inofensivas que cercam a gestação, algumas relacionadas às características da criança, outras à pele, algumas até ao parto. Mas grávida que é grávida já deve ter se deparado com os palpites mais assustadores, como os que recomendam que gestantes não usem corrente no pescoço… É – não pode nem um mísero colarzinho – corre a lenda, sob o risco de o bebê nascer com o cordão umbilical enrolado.

Crendices e superstições existem há muito tempo. Ao Brasil, chegaram com os portugueses, ganharam reforço das crenças indígenas e, mais tarde, da cultura dos escravos e das levas de imigrantes. O medo e a dúvida estão na base do nascimento desses pensamentos, que tentam explicar o incompreensível. Para o folclore, crendice é a fé em coisas que a lógica não explica. A superstição é igual, mas envolve o medo de consequências.Transmitidas de geração em geração, ignoram o progresso e, no caso daquelas relacionadas à gestação, contam com as incertezas e dúvidas naturais do período.

Mas será que nada do que dizem é verdade? Nem que comer canjica deixa o leite forte? Ou que chocolate faz o bebê mexer? Para saber o que é fato ou boato, fomos atrás de especialistas que explicam essas histórias. Meu filho pode ter cara de morango?

Falso A maioria das crendices acerca das gestantes envolve os desejos que elas costumam manifestar, que, segundo a lenda, se não forem atendidos, a criança nascerá com alguma marca na pele. Se a grávida não comer uma fruta que tiver vontade, por exemplo, a mancha na pele do bebê será da cor desse fruto.

Tudo mentira! Não há relação entre desejos e lesões na pele do bebê. Nenhum alimento interfere nas características da pele nem das feições das crianças. O que acontece na gravidez são as alterações de gosto, de cheiro e de preferência alimentar. Desejo de grávida não é capricho. A partir da 12ª semana de gestação, o controle dos hormônios deixa de ser feito pelos ovários e passa para a placenta, e as características do estrogênio, por exemplo, mudam. Isso leva à oscilação de humor. Antes disso, muitas mulheres sentem vontade de comer alimentos ácidos. É uma defesa do organismo contra os enjoos.

Outra crença relacionada às marcas na pele é a de que, se a grávida colocar uma flor ou folha no seio, a criança nascerá com um sinal semelhante. Bobagem! Dizem, ainda, que o risco escuro no meio da barriga da gestante indica que ela terá uma criança morena. Mais um mito. O risco escuro está presente na maioria das gestantes e é chamado de linha alba quando não está pigmentado e de linha nigrans quando está mais visível. Ter ou não a linha não traz nenhum benefício ou prejuízo ao bebê ou à mãe.

Barriga pontuda é sinal de menino?

Falso Menino ou menina? Está aí um palpite com pelo menos 50% de chance de dar certo, seja qual for a crendice da comadre. Pode ser observar o formato da barriga (redonda é menina, pontuda é menino), girar uma linha ou correntinha sobre a mão da grávida (se rodar é menina, se ficar um pêndulo, menino) ou pedir para mostrar a mão (dorso é menina, palma é menino). Nada, porém, tem fundamento científico, nem mesmo o formato da barriga, que é definido por duas situações: a posição em que o bebê está no útero e a prensa abdominal da paciente. Dependendo da musculatura de cada mulher, a barriga vai cair mais ou menos, ficar mais pontuda ou mais arredondada.

Assim, ditar o sexo do bebê, em qualquer desses casos, não passa de adivinhação. É tudo chute. Só o ultrassom, por volta da 20a semana, pode indicar se é menino ou menina. Para os mais curiosos, o exame de dosagem sanguínea, chamado sexagem fetal, indica o sexo da criança já entre a 8ª e a 9ª semana. Apesar de ser pura especulação, dá para se divertir bastante com as “previsões” da família e dos amigos. Aproveite!

Chocolate faz o bebê mexer?

Verdadeiro Enjoo, azia e refluxo de grávida teriam uma explicação muito simples pela “sabedoria” popular: o mal-estar indica que o bebê tem muito cabelo. Os mitos que envolvem o estado das gestantes e a alimentação reúnem outras pérolas, como a de que é preciso comer canjica, para o leite ficar forte, ou chocolate, para o bebê mexer. Este último até faz sentido, mas não é saudável. A nutricionista Cíntia Perine explica que, quando o bebê recebe uma carga alta de açúcar, fica agitado. O excesso da substância, porém, leva embora vitaminas do complexo B, fundamentais para a formação de neurotransmissores, e ainda pode causar problemas de saúde, para a mãe e para o bebê, como diabetes e excesso de peso.

As outras crendices ligadas à alimentação não passam de… crendices. Ter azia na gravidez não é garantia de bebê cabeludo. A azia e o refluxo, na maioria das vezes, ocorrem porque aumenta a pressão dentro do abdome e há um relaxamento da musculatura, que faz a transição para o estômago. Também é bobagem achar que canjica, cerveja preta ou outro alimento aumentam a quantidade de leite. Não há nada comprovado. O que se sabe, de fato, é que, quanto mais a mulher amamentar, mais leite terá. Boa alimentação, ingestão de muito líquido e a posição certa na hora de amamentar também ajudam. E só.

Cabelo de grávida é mais brilhante?

Verdadeiro Toda mulher sabe que seu corpo vai mudar durante a gestação, mas será que é verdade que o cabelo fica mais bonito, que o pé aumenta, que os dentes se tornam mais frágeis? É, esses mitos podem sim se tornar realidade. Por causa da alteração dos hormônios (sempre eles…), os cabelos se tornam mais brilhantes durante a gravidez. Se a alimentação da mulher for equilibrada, eles podem ficar ainda mais vistosos e volumosos. Aproveite! Até porque eles tendem a cair após o parto.

A saúde bucal também sofre mudanças. Com o aumento da vascularização, a gengiva da gestante fica muito mais sensível, sujeita a sangramentos e gengivite. Para evitá-la, use escova infantil e visite o dentista regularmente. Já o mito do “pé grande” é mais ou menos verdade. Nenhum pé cresce na gravidez, mas ele pode aumentar de tamanho por causa do inchaço, causado pela retenção de líquidos, comum a partir do 7o mês, e até pelo excesso de peso. Por causa do conforto, algumas mulheres passam a usar um número de sapato maior e continuam vestindo a mesma numeração após o parto. Até porque a rotina cheia de novidades pede pés sem bolhas nem calos!

Raspar o fundo da panela prejudica o parto?

Falso Quanto mais misterioso o fenômeno natural, mais superstições. Se até hoje o parto é o maior causador de dúvidas entre as grávidas, imagine como era entre as sociedades ancestrais. O resultado é uma enxurrada de crenças em torno do nascimento, algumas inofensivas, como acreditar que a lua muda a data do parto (nenhuma pesquisa confirma, mas os obstetras garantem ter mais trabalho nessas datas…), e outras escabrosas. Dizem que, se a grávida raspar o fundo da panela, terá dificuldade no parto. Dizem ainda que, se pisar em espinha de peixe, pode não expulsar a placenta. Caso passe por uma cerca de arame farpado, a criança ficará atravessada.Tudo crendice.

Um bom parto depende da qualidade da equipe médica e do tamanho do bebê. Na maioria deles, a primeira parte do bebê que sai é a cabeça. Em 5%, a criança pode estar em posição diferente, sentada ou atravessada, o que costuma impedir o parto natural. A cerca de arame farpado, com toda a certeza, não tem nada a ver com isso.

Já a placenta se acopla à primeira camada do útero, na região do endométrio. Se estiver inserida de forma anormal, pode haver dificuldade de expulsão. Quanto ao cordão umbilical, existe a possibilidade de ele se enganchar ou ficar enrolado ao pescoço. A situação não impede o parto normal, porque, normalmente, o cordão está frouxo. A indicação de cesárea só ocorre quando o cordão é curto e há uma tração que leva à diminuição do fluxo de sangue, podendo ocasionar sofrimento ao bebê. Ah… o colar da mãe não tem culpa nenhuma disso.

Dormir de bruços causa pé chato?

Falso O maior desejo de quem está carregando um filho na barriga é o de que ele nasça com saúde. Povoa os pesadelos da grávida imaginar que seu bebê possa ter alguma deficiência e, de novo, quanto maior o medo, mais crendices inspira. Algumas são mesmo de perder o sono. Dizem que grávida não deve olhar para pessoas com problemas físicos ou mesmo para fotos delas. Se olharem, o filho nascerá igual. Também não devem encarar um coelho ou uma lebre, senão o filho pode nascer com orelhas grandes ou com lábio leporino. E, se a grávida dormir de bruços, a criança terá pé chato. Dormir de bruços? E grávida lá consegue dormir de bruços?

Independentemente da posição na hora do sono, muitas crianças nascem com o pé considerado chato. É comum. Até os 4 anos, normaliza. E, caso isso não aconteça, só lá pelos 7, 8 anos é preciso procurar um ortopedista. Já o lábio leporino é uma malformação congênita. E não há nada que um inofensivo coelho possa fazer a respeito!

Assim, não ligue para essas lendas. A única forma de garantir uma gravidez saudável, sem estresse desnecessário causado pelos palpites alheios, é fazer um pré-natal correto, manter uma alimentação equilibrada e encarar as crendices com bom humor. Elas fazem parte dos nove meses e você vai dar muitas risadas ao se lembrar de tudo depois.

Fontes: Revista Crescer, Jozian Quental Mendes, dermatologista; Edilson Ogeda, diretor da maternidade do Hospital Samaritano (SP); Altamiro Ribeiro Dias Jr., ginecologista do Hospital Sírio-Libanês (SP); Dario Romano, ortopedista do Hospital Samaritano (SP); Cíntia Perine, nutricionista; Alexandre Pupo Nogueira, obstetra do Hospital Sírio-Libanês (SP); Márcia Maria da Costa, obstetra e ginecologista da maternidade São Luiz (SP)