A conversa por telefone da CRESCER com Michelle Slatalla, 48 anos, jornalista
que escreve a coluna Wife/Mother/Worker/Spy (Esposa/Mãe/Trabalhadora/Espiã) no
jornal The New York Times, começou enquanto ela fazia o almoço e
colocava em prática sua filosofia de mãe: cuidar da vida pessoal e da vida
profissional ao mesmo tempo, sem dramas nem jogos de esconde-esconde. É, sabemos
que você passou a vida toda ouvindo justamente o contrário, que uma coisa não
deve interferir na outra e que problemas de casa não devem chegar ao trabalho
(mas quem nunca deu um telefonema no meio do expediente para marcar uma consulta
do filho?). Michelle decidiu quebrar tabus e deixar de lado esse blá-blá-blá.
Para criar as filhas Zoe, 21 anos, Ella, 19, e Clementine, 12, focou no que
acredita ser realmente indispensável e deixou de lado as burocracias que impedem
a mãe contemporânea de ter uma vida mais tranquila. Confira a entrevista, que
terminou às pressas porque Michelle precisava levar a filha na escola.
“Elimine as coisas desnecessárias ou que causam
estresse. Eu, por exemplo, me livrei de toda a bagunça da minha casa. Também
reduzi meu guarda-roupa a seis jeans, duas camisas brancas, duas pretas e cinco
pares de sapatos.”
CRESCER: Você diz que misturou sua vida pessoal com a profissional...
Michelle Slatalla: Estou fazendo isso agora! Enquanto falo
com você, faço o almoço para minha filha. Quando eu a levo para o balé, em São
Francisco [a 30 minutos de Mill Valley, onde mora], aproveito o tempo no carro,
esperando, para escrever no computador a coluna.
C.: Os especialistas recomendam o contrário, que a mãe separe
profissional e pessoal.
M.S.: Mas isso é muito difícil! Se eu fizer dessa forma,
como minha filha vai almoçar? Essa postura é herança de décadas atrás, quando as
mulheres entraram no mercado de trabalho e tinham medo de parecer mais
preocupadas em cuidar dos filhos do que em trabalhar. Isso não é realista nem
necessário. Por sorte, as mulheres são capazes de fazer várias coisas ao mesmo
tempo.
C.: E o que fez você ir contra as recomendações?
M.S.: Na verdade, aconteceu por acidente. Quando resolvi
trabalhar em casa, como freelancer, percebi que rendia mais fazer as tarefas de
casa e do trabalho aos poucos, ao longo do dia, e que isso fazia todo mundo,
inclusive eu, mais feliz.
C.: Como as mães podem fazer para lidar com o trabalho, os afazeres
domésticos e não se sentirem sobrecarregadas?
M.S.: Elimine as coisas desnecessárias ou que causam
estresse. Eu, por exemplo, me livrei de toda a bagunça da minha casa. Também
reduzi meu guarda-roupa a seis jeans, duas camisas brancas, duas pretas e cinco
pares de sapatos. Fui capaz de identificar e eliminar o que me deixava
estressada. O ponto é encontrar, no seu cotidiano, as coisas que não deixam você
se sentir bem e pensar se são mesmo necessárias. Se a resposta for não, livre-se
delas!
C.: Muitas mulheres trabalham o dia todo e não têm horários
flexíveis. Como podem equilibrar família e trabalho?
M.S.: O principal é não sofrer tanto por causa das pequenas
coisas. O que mais importa é que todos na família estejam felizes. Então, pense
sobre o que é realmente essencial: que você vá trabalhar, que seus filhos
cheguem à escola, que vocês passem algum tempo juntos. Não seja tão rígida sobre
quando vai ser esse tempo e não se culpe por não poder fazer tudo sempre. É uma
questão de fazer as coisas se encaixarem naturalmente. Se você precisar sair do
trabalho para ir à escola de seu filho, por exemplo, vá e compense à noite,
trabalhando de casa.
C.: Como as mães podem fazer para deixar de se preocupar tanto com as
pequenas coisas?
M.S.: Não se chateie com coisas das quais ninguém irá se
lembrar daqui a cinco anos. Se seus filhos precisam cortar o cabelo, mas você
não tem tempo de levá-los nessa semana ou eles não querem ir, esqueça! Vá ao
parque. Pare e note o que você faz de bom, porque se pensar, com certeza vai
encontrar muitas coisas que deveria ter feito. Se os seus filhos não querem se
vestir de manhã, você pode colocá-los para dormir de uniforme na noite anterior.
Deixe as coisas que causam problemas fora da rotina.
C.: Como seus filhos veem a mistura de vida profissional e pessoal?
M.S.: As crianças são flexíveis e aceitam o exemplo que os
pais dão. Meus filhos acham que isso é normal, porque foram criados assim. O
importante é que você ame seus filhos, tome conta deles, ame seu trabalho, faça
o melhor que puder e curta a vida. E não há regra, fórmula ou lei que diga como
você deve fazer isso. Você tem que escolher a melhor forma para você.
Fonte: Revista Crescer